quarta-feira, 30 de julho de 2008

Até o fim raiar

Julho de algum ano, quarta - feira.

Está noite. Gosto de colocar a cadeira na janela e me apoiar nela para escrever em meu diário. A noite é inspiradora, o escuro, seu frio... me faz sentir bem, livre!
Todas as noites eu rezo. Agradeço a Deus por todas as graças concedidas, as conquistas, meu almoço e minha janta. Agradeço por viver, valorizar minha família e as pessoas que amo. Faço minhas preces, e reforço fé e esperança.
Às vezes durante as conversas e orações, me pego desejando e pedindo benção para outras pessoas. Sinto um carinho e um amor tão imensos, que até em pedidos e evocações estão presentes. É algo gratuito, verdadeiro, bondoso...
Tem um samba que Seu José toca no botequim, e diz: "E quanto mais remo rezo pra nunca mais se acaba! Essa viagem que faz o mar em torno do mar. Meu velho um dia falou, com seu jeito de avisar: Olha, o mar não tem cabelos que a gente possa agarrar!" Lindo, muito lindo.
Na grandeza do mar, com sua calmaria e tempestades, ondas e marolas, o barco caminha sobre as águas, navega no azul intenso acolhedor e desafiador. Não há barreiras, mãos ou cabeços para se agarrar!
É preciso saber ser timoneiro de sua embarcação! Guiá - la, e navegar no mar, na vida. Seu único par nessa jornada é Deus.
Tenho minha janela, meu céu e minha noite, as palavras que expressão minhas emoções e lembranças que dão asas as saudades e combustível para a vida! Sentido ao meu futuro, e desejos de realização.
Todos podem ter suas embarcações, seus barcos, ou navios. Navegando, e seguindo mar a dentro. Certo ou errado, nadarei até você. Te ajudarei a remar, e juntos enfretaremos raios e trovões, e quando o sol chegar o contemplaremos abraçados e unidos, com a certeza que somos céu, mar e fim e o nosso amor é imensidão!


Luisa.
[Botequim da -Lú]


Bem - vindo seja, mas traga cerveja.

sábado, 19 de julho de 2008

Noite de saudade

Fragmento:

A tarde o movimento foi calmo. Todas as mesas estavam ocupadas, muito trabalho, mas tudo controlado.Havia uma moça em frente ao botequim sentada na calçada. Me chamou a atenção.Estatura média, cabelos finos com a raiz grisalha amarrados na cabeça e cobertos com um lenço. Com os pés descalços, uma saia comprida e florida de azul e rosa, já gastos devido ao uso, e uma blusa fina com poucos botões transmitiam uma imagem cotidiana. Uma moradora de rua, pobre, simples e violentada pela miséria do mundo, das ruas.Sentada no chão, com as costas mau acomadas em um poste, seu olhar sem luz era forte e grande. Olhos famintos.Por alguns instantes a observei. Aquela figura me fazia sentir algo estranho, uma sensação de necessidade de agir. Qual fosse a ação.Lembro - me, chegar a lhe perguntar se precisava de algo. Mas ela não respondia. Se mantia quieta, de olhos bem abertos e atentos.Pouco depois, esqueci da sua presença e continuei a trabalhar e servir as mesas.A noite, por volta das nove horas, do outro lado da rua percebi que ainda permanecia a senhora. Levei - lhe um prato de comida, o PF comum da casa com alguma quantidade a mais, para que pudesse satisfazer a sua fome.Cobri a comida com um outro prato, e enrolei em um pano. Fui levar.Sem que tivesse chance de dizer algo, ela já pegara o prato da minha mão e começou a comer.Sentei ao seu lado, para fazer companhia. Acabei por observar sua maneira, seus gestos, seus expressões...Enquanto comia, pode reconhecer. Não poderia ser mais perceptível.Quantos iguais haviam a sua volta, e a minha? Na porta de casa, ao lado do meu trabalho, me acompanhando nos ônibus pela cidade. Era um Ser Humano, faminto, violentado, estuprado! Sem dignidade, moradia, chão, introduzido a exclusão em uma sobrevida. Minha irmã, filha do mundo. O mesmo mundo em que eu vivo, e em condições tão discrepantes.
Ao acabar de comer a senhora começou a conversar: "Sabe, querida. Nunca esqueci aquele casaco vermelho. Impunha um respeito, maior do que qualquer opressão que enfrentei nessa vida. O porte, seus passos, o medo da sensação da sua presença. Um vazio, acompanhado de batidas aceleradas do meu coração, um ódio reprimido pela minha covardia. Jamais poderia ser amor...Nenhuma perda, seria capaz de me entristecer, tamanha a coragem que foi preciso ter para passar por cima de barreiras e bloqueios que não permetiam a minha sobrevivencia!Muitas saudades ainda permanecem. Talvez eu volte. Um dia eu volto, mas eu quero esquecê - la, eu preciso. Minha grande, minha pequena obsessão..."
Uma sobrevivente da vida, oprimida pelo homem, e corajosa guerreira de pés descalços e sujos. Transparente, esquecida, rejeitada... Com um passado e uma familia, abandonados para se sentir Mulher e digna.
Está noite senti saudades daquela senhora. Não perguntei seu nome, nem sua idade, apenas a escutei. Nas palavras desajeitas, no sotaque, na expressão regionalista, apenas minhas lágrimas falavam por mim.Levantou - se e caminhou a caminho da esquina, jamais a esquecerei.


Luisa.
[Botequim da -Lú]

Bem - vindo seja, mas traga cerveja!

terça-feira, 15 de julho de 2008

Eu nunca te esqueci...

Naquele quarto tem um mural.
Naquele mural tem um quarto
Quatro paredes, infinitos sorrisos, uma história
contada por alguns momentos paralisados.
Fragmentos de felicidade, tristeza, estagnação...

Tem uma foto naquele mural.
Tem uma vida naquela foto.
Vida de incertezas, flores escondidas, infantilidades expostas...

Uma pessoa mora naquele quarto
Outras visitam
A almofada na cama, a caneta aberta, a foto no mural
Uma vida esteve aquele quarto, uma vida o habita.

Bonecas, tranças, rosa, azul...
Ao lado do quarto mora o amor.
Incondional, presente, acolhedor.
Uma vida depende do amor,
um amor depende da vida.

Distantes e próximos, mas sempre no quarto ao lado.


-Corte de Cetim.


Era sexta - feira, 19 horas. Aos poucos as violas acupavam as mãos, e apoiavam - se nas pernas. Começava a música, esvaziavam - se as garrafas e mais garrafas...
Lentamente, com sugestões ali, outras aqui, surgiam os sambas, cada estrofe possuia a melodia de quem contribuia com as palavras da vida, com as lembranças em meio as saudades.
Hoje lembrei daquele samba. Do primeiro dia, que o senhor dos óculos escuros cantará sentado na mesa na calçada.
Lembrei - me de me apoiar no balco e ficar admirá - lo, com sua canção de amor, seu olhar tristonho e sua voz, que faziam minhas lágrimas escorrerem por meu rosto, cortornarem minhas imperfeições e me recordar do homem, aquele homem, que na porteira ficou a me olhar...
Minha vida não estava lá. Os caminhos da estrada percorriam outros horizontes.
Meu amor. Grande amor... sua imagem ainda habita as saudades que roem meu coração. Seu abraço e beijo ainda me enternecem.


Coisas do mundo minha nega - Paulinho da Viola

Hoje eu vim minha nega
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso
Nas mãos a mesma viola onde eu gravei o teu nome
Venho do samba há tempo, nega
Venho parando por ai
Primeiro achei zé fuleiro que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Que está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se não dispunha de algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou de seu azar

Hoje eu vim, minha nega
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra pra não perder o valor

(...) Hoje eu vim, minha nega
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço.


(...) Hoje eu vim, minha nega
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo a forma de se viver
As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender



Bem - vindo seja, mas traga cerveja.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Homenagem ao Malandro - Chico Buarque

Malandro, S.m:

Homem da ralé
Patife
Gatuno
Malandro

Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem,
que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem
não existe mais.
Agora já não é normal,
o que dá de malandro regular profissional,
malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital,
que nunca se dá mal.
Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha,
tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
mora lá longe e chacoalha num trem da Central.


Realmente, malandros não existem mais. O homem simples que passa a perna vida
para levar comida pra casa, vive na boêmia das ruas, dos botecos. Com o violão embaixo
do braço, e o sofrimento no seu samba, na sua música. Acompanhada pelos camaradas da mesa, e sua cachaça.
Malandro da vida, de criação, pelo mundo violento e massacrador. Que excluí sua existência, quase não dá valor ao seu suor, e tão pouco lhe agradece.
Malandro não sai no jornal, muito menos vende sua imagem, e atravessa por cima do seu próximo para conseguir o que deseja.

A malandragem atual anda engravatado e de colarinho branco, sai em coluna social, e é candidato a malandro federal. E está longe de chacoalhar no trem da central.

O famoso malandro de outros carnavais, acima de tudo ama. Ama o amor, a loucura, sua vida sem objetivos, começo, meio e fim. Respira intensamente o ar da madrugada, o cheiro das ruas, trança as pernas, tem mulher e casa. Mas sua verdadeira moradia está na luz do luar, nos pedregulhos do chão.... Na oferenda ao santo!

-Corte de Cetim.


[Bem - vindo seja, mas traga cerveja!]

domingo, 13 de julho de 2008

Av. São João - O Início

10 de Junho, de anos e anos atrás...

Ainda de noite, as 4 horas da manhã o despertador tocava. Todos se levantam, sem acordar nínguem, ia devagar pulando minhas duas irmãs que dormiam comigo na cama.
Organizando o café na pequena mesa, já com algumas rachaduras e farpas grudadas com fita crepe, eu e meu pai dividimos um pão comprado com a venda das latinha recolhidas nas ruas.
Aos poucos, por volta das 5 horas da manhã, a noite estava mais clara e a manhã lentamente mais uma ver acordava.
Nessa noite havia sonhado com minha avó. Podia sentir em meu sonho o cheiro de suas roupas, a maciez de sua pele a me acariciar. Meus olhos acordavam bentos de lágrimas. Minha esperança se tornava maior, uma força crescia dentro de mim...

Já com as trochas arrumadas, abrimos a porta, e depois pulamos o portãozinho de ferro de frente a casa, que a meses havia quebrado. Pular, era a única maneira de sair.

Depois de algumas horas e dois ônibus chegamos ao local. Era lá. A nossa maior mudança de vida, e conquista depois de tanta energia e suor sagrados gasto.
Avenida São João, minha melhor lembrança, meu grande orgulho, o Senhor Zé finalmente respirava! As lágrimas minhas e de meu pai foram incontroláveis.
Pulavamos, gritavamos e dançamos pela rua, frente ao nosso botequim. Não havia mesas, cadeiras, nada para beber ou comer, mas era nosso.
Com o mesmo esforço para comprá - lo, teriamos para erguê - lo e manter a tradição de seu pai, meu avô. Os sambas, a cachaça, as mesas simples, o ambiente acolhedor...

Foi um dia incrível. Jamais me esquecerei. Mas o que estava por vir, possuiria uma marca inexplicávelmente maior...



O texto de Luisa publicado hoje, conta a história do primeiro dia da sua maior experiência de vida e luta. Morando ainda em uma casa modesta e pobre com sua família, a sua emoção é retrata com palavras sofridas e aliviadas. Independente de tudo o que já havia passado desde aquele dia, jamais perderá o sentimento e a esperança das lágrimas do sonho com sua avó, e seus pulos com seu pai ao chegar no fim de uma luta, e no começo de uma verdadeira guerra.

-Corte de Cetim.

Cárdapio

Bem - vindos ao Botequim da -Lú.

O estabelecimento possuíra regras, que deveram ser seguidas sem qualquer possibilidade de modificação, sem justificativa coerente e estudada.
Aos clientes, pedimos que utilizem o espaço de modo civilizado atentando para a sua ordem, e lembrando que outras pessoas utilizaram o mesmo.
O espaço destinado aos comentários, é de uso exclusivo dos visitantes, desde que realmente tenham algo construtivo e inteligente para dizer. Recados grosseiros e chulos seram deletados.

O cárdapio do Botequim da -Lú, permancerá sempre atualizado, para o esclarecimento de qualquer dúvida.
O conteúdo do Blog, possuirá assuntos reflexivos, abordando temas diferentes ligado ao mundo, arte, cotidiano, pessoas, etc. Aceitamos sugestões e críticas.


História:

O Botequim da -Lú, é a reconstruções de uma clássica da história dos Blog's. Há anos atrás, uma adolescente, criou uma página na internet onde escrevia, e comentava diferentes assuntos. O sucesso do Blog, se deu devido a sua criatividade criando um Botequim na internet.
A idéia do nome Botequim, esta relacionada com o ambiente que se criou no Blog, relacionados com os famosos botecos da cidade de São Paulo, onde seu pai era dono.
O som do sambas de mesa, as conversas, o cheiro das ruas e das pessoas que frequentavam o ambiente estavam nas palavras e texto da menina.
Ajudante de garçonete, a filha do Zé do Botequim, se conssagrou de maneira incrível! As conversas, as farras e discussões entre os bebâdos, que cantavam sua esperança, sua fé e tristeza penetravam em seu modo de enxergar a vida, e sua realidade.

Voltando as origens do Botequim da -Lú, temos o objetivo aqui de contar as histórias ouvidas por Luisa, as criadas por ela, em alguns dias de trabalho, sua visão de mundo, e outros assunto se baseando na mesma idéia da adolescente. Imaginar, criar, escrever sobre tudo o que está ao seu redor e passa pelo botequim de seu pai.


Bem vindo seja, mas traga cerveja.

Obrigada.