segunda-feira, 14 de julho de 2008

Homenagem ao Malandro - Chico Buarque

Malandro, S.m:

Homem da ralé
Patife
Gatuno
Malandro

Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem,
que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem
não existe mais.
Agora já não é normal,
o que dá de malandro regular profissional,
malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital,
que nunca se dá mal.
Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha,
tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
mora lá longe e chacoalha num trem da Central.


Realmente, malandros não existem mais. O homem simples que passa a perna vida
para levar comida pra casa, vive na boêmia das ruas, dos botecos. Com o violão embaixo
do braço, e o sofrimento no seu samba, na sua música. Acompanhada pelos camaradas da mesa, e sua cachaça.
Malandro da vida, de criação, pelo mundo violento e massacrador. Que excluí sua existência, quase não dá valor ao seu suor, e tão pouco lhe agradece.
Malandro não sai no jornal, muito menos vende sua imagem, e atravessa por cima do seu próximo para conseguir o que deseja.

A malandragem atual anda engravatado e de colarinho branco, sai em coluna social, e é candidato a malandro federal. E está longe de chacoalhar no trem da central.

O famoso malandro de outros carnavais, acima de tudo ama. Ama o amor, a loucura, sua vida sem objetivos, começo, meio e fim. Respira intensamente o ar da madrugada, o cheiro das ruas, trança as pernas, tem mulher e casa. Mas sua verdadeira moradia está na luz do luar, nos pedregulhos do chão.... Na oferenda ao santo!

-Corte de Cetim.


[Bem - vindo seja, mas traga cerveja!]

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