sábado, 19 de julho de 2008

Noite de saudade

Fragmento:

A tarde o movimento foi calmo. Todas as mesas estavam ocupadas, muito trabalho, mas tudo controlado.Havia uma moça em frente ao botequim sentada na calçada. Me chamou a atenção.Estatura média, cabelos finos com a raiz grisalha amarrados na cabeça e cobertos com um lenço. Com os pés descalços, uma saia comprida e florida de azul e rosa, já gastos devido ao uso, e uma blusa fina com poucos botões transmitiam uma imagem cotidiana. Uma moradora de rua, pobre, simples e violentada pela miséria do mundo, das ruas.Sentada no chão, com as costas mau acomadas em um poste, seu olhar sem luz era forte e grande. Olhos famintos.Por alguns instantes a observei. Aquela figura me fazia sentir algo estranho, uma sensação de necessidade de agir. Qual fosse a ação.Lembro - me, chegar a lhe perguntar se precisava de algo. Mas ela não respondia. Se mantia quieta, de olhos bem abertos e atentos.Pouco depois, esqueci da sua presença e continuei a trabalhar e servir as mesas.A noite, por volta das nove horas, do outro lado da rua percebi que ainda permanecia a senhora. Levei - lhe um prato de comida, o PF comum da casa com alguma quantidade a mais, para que pudesse satisfazer a sua fome.Cobri a comida com um outro prato, e enrolei em um pano. Fui levar.Sem que tivesse chance de dizer algo, ela já pegara o prato da minha mão e começou a comer.Sentei ao seu lado, para fazer companhia. Acabei por observar sua maneira, seus gestos, seus expressões...Enquanto comia, pode reconhecer. Não poderia ser mais perceptível.Quantos iguais haviam a sua volta, e a minha? Na porta de casa, ao lado do meu trabalho, me acompanhando nos ônibus pela cidade. Era um Ser Humano, faminto, violentado, estuprado! Sem dignidade, moradia, chão, introduzido a exclusão em uma sobrevida. Minha irmã, filha do mundo. O mesmo mundo em que eu vivo, e em condições tão discrepantes.
Ao acabar de comer a senhora começou a conversar: "Sabe, querida. Nunca esqueci aquele casaco vermelho. Impunha um respeito, maior do que qualquer opressão que enfrentei nessa vida. O porte, seus passos, o medo da sensação da sua presença. Um vazio, acompanhado de batidas aceleradas do meu coração, um ódio reprimido pela minha covardia. Jamais poderia ser amor...Nenhuma perda, seria capaz de me entristecer, tamanha a coragem que foi preciso ter para passar por cima de barreiras e bloqueios que não permetiam a minha sobrevivencia!Muitas saudades ainda permanecem. Talvez eu volte. Um dia eu volto, mas eu quero esquecê - la, eu preciso. Minha grande, minha pequena obsessão..."
Uma sobrevivente da vida, oprimida pelo homem, e corajosa guerreira de pés descalços e sujos. Transparente, esquecida, rejeitada... Com um passado e uma familia, abandonados para se sentir Mulher e digna.
Está noite senti saudades daquela senhora. Não perguntei seu nome, nem sua idade, apenas a escutei. Nas palavras desajeitas, no sotaque, na expressão regionalista, apenas minhas lágrimas falavam por mim.Levantou - se e caminhou a caminho da esquina, jamais a esquecerei.


Luisa.
[Botequim da -Lú]

Bem - vindo seja, mas traga cerveja!

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