quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Retirado do video: Luz Invisível.

É esta. Idéia para uma história. Aparece um homem numa cidade oferecendo-se para fotografar as pessoas. Diz que não cobra nada por isto. Fotografa-as na rua e no seu estúdio. Faz retratos individuais, casais, famílias, grupos... Todos aceitam o seu convite para posar. Já que é de graça! E o homem fotografa todo o mundo. Homens, mulheres, velho crianças. Passa o tempo todo nas ruas da cidade fotografando. Ou dando o seu cartão dizendo: “Aparece lá no meu estúdio, vamos fazer um belo retrato”. Em pouco tempo, fotografa toda a população do lugar. Ninguém paga nada para ser fotografado. Quando as pessoas perguntam ao homem por que ele as está fotografando, ouvem uma resposta evasiva. Ou resposta nenhuma. E um dia o homem desaparece, tão misteriosamente quanto tinha aparecido. Descobrem que seu estúdio foi abandonado, que ele levou suas câmeras e luzes e não disse a ninguém para onde ia. Todos estranham. E alguém diz: - Vocês se deram conta? – O que? – Nunca se viu nenhuma fotografia. É verdade. O homem fotografava, fotografava, mas as fotografias não apareciam. Ninguém nunca tinha visto uma fotografia sequer. Que história era aquela? Surgem várias teorias. Não tinha filme na máquina. Ele estava nos gozando. Fingia que fotografava, “clic”, mas não tinha filme na máquina. Mas por que? E por que toda aquela encenação? Estúdio, refletores, equipamento caro. Que se soubesse, ele nunca tirara dinheiro de ninguém. Ou seria tudo só um pretexto para fotografar as moças? Estava explicado, era um tarado. Mas, que se soubesse, ele nunca pedira para uma moça tirar a roupa. Ou mesmo abrir um pouco mais a blusa, pelo contrário, quando a blusa estava muito aberta ele pedia para fechar. Qual era a explicação? E então surge a teoria mais estranha, e por isso mesmo a que tem mais aceitação. O homem era um enviado de outro mundo, de outra dimensão. Seu trabalho era coletar gente, ou imagens de gente, e transmiti-las para o seu planeta, onde haveria uma crise de imagem, ou de gente.
Suas câmeras não eram câmeras, eram transmissores intergaláticos. Naquele exato momento toda a população da cidade estava povoando outra cidade, em outro universo, em outra dimensão. Era isso. O homem fornecia populações inteiras para cidades despovoadas por algum cataclismo. Ou apenas imagens para um mundo só de imagens. Pensando bem, não seria uma teoria tão descabida assim. Porque o que um fotógrafo faz é transmitir imagens deste mundo para outro. Um outro mundo banal, não muito diferente deste, se o fotógrafo for medíocre, mas um mundo só dele, numa galáxia particular com seu próprio clima e seus próprio universo de referências, se for um Scavone. Não é exatamente uma questão de estilo reconhecível, que cada grande fotógrafo tenha diferente. Isso seria quase dizer que o grande fotógrafo é prisioneiro do seu estilo conhecido, que nunca estaria muito longe de ser um maneirismo. O Scavone fotografa em vários estilos e não se pode dizer que tenha assinatura visual, fora o bom gosto invariável. A questão é outro tipo de coerência. Pense no grande fotógrafo como alguém numa missão de prospectar o nosso mundo atrás de imagens para povoar o seu. Uma missão secreta, permanente, implacável. Se for capturado e interrogado sobre esse mundo para o qual trabalha Márcio Scavone não poderá revelar muita coisa. Porque ele mesmo não sabe, ou sabe apenas instintivamente, o que procura, o que merece ser captado e publicado, ou transmitido para o seu mundo. Só sabe que encontrou o que procurava através do visor, ou no momento de examinar o contato. Então decide: é esta. Esta merece ser transmitida. Cabe no seu mundo. Já se descreveu a fotografia como a arte do fortuito. O próprio Scavone diz que ela um espelho com memória. Acho que é isso e não é bem isso. O caçador de imagens está atrás do fortuito e um retrato é, sim, um espelho com lembrança, e com opinião, mas o grande fotógrafo não está apenas à espreita do acaso feliz, nem se posta diante do fotografado como um espelho, mágico, mas neutro. Ele tem uma pré-concepção do que quer. O seu instinto é pela coisa indefinível da imagem que lhe dirá “É esta”, e que na falta de definição pode ser descrita como uma luz invisível. Uma luz nem natural nem artificial, de uma terceira e misteriosa origem, que muitas vezes ele só vai descobrir que estava lá no laboratório (ou no computador, ou onde quer que os fotógrafos de hoje vejam o que fizeram). Mas que só ele identifica. Pois cada grande fotógrafo tem o seu parâmetro pessoal, a sua luz invisível, a luz típica do universo particular do qual ele é o espião, e para o qual manda nossas imagens no seu transmissor intergalático.

Luis Fernando Verissimo.


Um deslumbramento! Talvez essa luz invisível seja a alma da fotografia, essa, particular de cada fotografo.

-Corte de Cetim.

Nenhum comentário: